Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 23/Junho/2001 - Secção Terra

Entulho Soterrou Parte do Lapiaz do Abano

Por ANA MACHADO
Sábado, 23 de Junho de 2001

Parque Natural de Sintra-Cascais avançou com contra-ordenação para eventual punição dos responsáveis por despejos ilegais

A moradia em construção no Abano, na zona do Guincho, não está só a afectar o património biológico, com efeitos nefastos para as populações da planta endémica "Omphalodes kunzinskyanae", como também está a atingir, embora indirectamente, o património geológico da área. O despejo dos entulhos da obra está a ser feito em cima de uma parte do lapiaz do Abano - uma formação calcária, de elevado valor geológico, onde durante todo o ano acorrem inúmeras equipas de investigadores de todo o mundo, fascinados com aquele património natural.

O lapiaz, expressão de origem francesa que designa uma formação específica de rochas de natureza calcária, foi formado, no caso do Abano, como consequência da formação da serra de Sintra. Ao erguer-se, a serra provocou a subida de rochas até à superfície da crosta terrestre, como por exemplo destas rochas calcárias.

Frágeis na sua constituição, elas sofrem ao longo dos tempos uma forte erosão devido, essencialmente, ao efeito de dissolução pela água das chuvas ligeiramente ácida. O resultado é a lapidação em forma de pináculo. É através deste efeito que também se formam os algares existentes nas formações calcárias, as grutas e as galerias.

O lapiaz em questão estende-se ao longo de toda a costa de Cascais até ao Abano, e consta na carta geológica do Parque Natural de Sintra-Cascais.

Mário Cachão, paleontólogo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica que aquela paisagem do litoral rochoso mostra um período de história geológica de Portugal: "Está aqui presente um intervalo de tempo, entre o Jurássico e o Cretácico, que ensina como foi a génese da própria serra de Sintra."

Vai mais longe ainda: "Além da natureza geomorfológica, temos a natureza geológica das rochas, a história que elas nos contam", referindo-se à fossilização visível à superfície. "É uma zona privilegiada de estudo. Em Portugal, só naquela região podemos testemunhar a interacção marinha e fluvial, pois apenas ali é que durante o Cretácico inferior houve uma influência do mar. Recifes de coral do Cretácico inferior só podem ser estudados ali", sublinha, usando uma imagem: "Está a ver um cenário paradisíaco, de águas cálidas e areias brancas? Era ali. Aqui vê-se geologia ao vivo."

O director do Parque Natural de Sintra-Cascais, Óscar Knoblich, que já fez avançar uma contra-ordenação por causa dos despejos de entulho que soterraram parte do lapiaz da zona do Abano, afirmou ao PÚBLICO: "[Aquela zona] não é um monumento geológico significativo e não há perturbação da geologia. Há, sim, um impacte visual na paisagem, por isso o nosso regulamento obriga a uma contra-ordenação."

Por seu lado, Miguel Ramalho, geólogo do Instituto Geológico e Mineiro, presidente do conselho consultivo do próprio parque, diz desconhecer o problema. Mas afirma que, uma vez colocado o entulho, terá de ser tirado à mão. O uso de máquinas na limpeza seria desastroso. E confessa, além do mais, não acreditar na eficácia das contra-ordenações em relação ao cumprimento da lei.

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