Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 8/Outubro/2001 - Secção Local Lisboa

Conheiras de Vila de Rei ameaçadas por obras e eucaliptos
Conheiras espanholas são património mundial
Câmara local quer aprofundar estudos e apostar nas potencialidades turísticas do monumento geológico

As cerca de 20 conheiras existentes nas diversas freguesias do concelho de Vila de Rei, cuja origem remonta provavelmente ao período de ocupação romana, estão a ser ameaçadas pela plantação de eucaliptos e por trabalhos de construção civil e obras públicas. As conheiras são gigantescos aglomerados de pedras rolantes, que as populações locais designam de conhos. Os romanos e possivelmente os mouros, com técnicas apropriadas, conseguiam extrair pequenas partículas de ouro agregados na superfície destas pedras. Durante séculos as conheiras permaneceram misteriosas, desconhecidas e, sobretudo, intactas. Actualmente, porém, a melhoria das acessibilidades às zonas em que se encontram está a constituir uma ameaça para a sua preservação. Dispostas basicamente ao longo da ribeira de Codes e de alguns cursos de água afluentes, as cerca de 20 conheiras já cartografadas pelo Instituto Geológico e Mineiro (IGM) são agora afectadas pela retirada de pedras por construtores e pela plantação de eucaliptos.

"Já começaram a levar pedra para as obras e a fazer o plantio de eucaliptos e isto é bastante prejudicial sobretudo se se alterar a topografia dos terrenos", observa Bernardo Barbosa, geólogo investigador do IGM. Além de se comprometer qualquer investigação futura sobre a passagem no local dos romanos ou, posteriormente, judeus e muçulmanos, está em causa o eventual reconhecimento do conjunto das conheiras como monumento geológico.

Para exemplificar a importância deste tipo de formações, Bernardo Barbosa sublinha que uma área que engloba um conjunto de conheiras romanas, perto da localidade de Berzau, na província de Léon, está classificada como Património da Humanidade.

"Ao nível do solo, por vezes escapam pormenores importantes, mas por fotografia aérea consegue-se compreender melhor como é que os povos que por aqui passaram removiam as partículas de ouro da superfície das pedras. A técnica romana era fazer vários regos por onde faziam passar a água para a lavagem dos conhos e que se iam reunir num único rego, assemelhando-se o conjunto a um pente", explica Bernardo Barbosa. "As partículas de ouro eram captadas com peles de carneiro ou com caules de herbáceas, que também eram eficazes. Em regra o teor em ouro era muito fraco. Se se conseguisse quatro gramas de ouro após a lavagem minuciosa de uma tonelada de pedras já era bom", esclarece o geólogo.

É frequente as populações das aldeias junto à ribeira de Codes referirem que "as conheiras são do tempo dos mouros". Porém, esclarece o geólogo, "isso pode significar apenas que são antigas". A verdade é que "um habitante local encontrou numa delas uma ponta de lança de origem romana", diz Bernardo Barbosa. Contudo, "é possível que na Idade Média os árabes tivessem retomado a actividade", como defendem alguns arqueólogos.

O aproveitamento destes verdadeiros monumentos histórico- geológicos é agora ponderado pela autarquia de Vila de Rei que pode apostar no turismo geológico no concelho. "É uma área para onde até há cerca de 20 anos não havia grande sensibilidade nem interesse, mas hoje já não é assim", admite o geólogo, adiantando que no sector da geologia Vila de Rei tem outros argumentos de peso. "É o caso da 'bicha pintada', um ícone fóssil que marca a passagem de uma trilobite numa rocha de quartzito e o da 'pedra furada', uma escavação em quartzito, ambas carregadas com crenças populares que lhe acrescentam valores mitológicos interessantes", afirma o investigador.

Na sua opinião, "uma das formas da autarquia apostar num circuito turístico é ligar as conheiras a um local em que fosse feita a recriação de uma exploração de ouro" na ribeira de Codes. "É importante ver tudo isto mas também compreender a base geológica que suporta formações como fontes, cascatas ou simples linhas de água. Quanto às conheiras, as florestas podem não as estragar, mas para isso é necessário que a orientação primitiva ligada à lavagem para a extracção do ouro não se altere", conclui.
Manuel Fernandes Vicente

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