Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 7/Junho/2001 - Secção Ciências

Futuro ainda incerto para o Jurássico do Cabo Mondego
Por ÁLVARO VIEIRA

Portugal tarda em classificar geomonumento reconhecido pela UNESCO

A geóloga Helena Henriques emocionou-se a meio da intervenção: "Até custa a acreditar", desabafou para a plateia a investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que se bate, há vários anos, pelo reconhecimento nacional do valor científico das falésias jurássicas do Cabo Mondego, na Figueira da Foz.

Custava-lhe a acreditar, mas era verdade. Era mesmo o presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, que estava ali a presidir à sessão pública sobre o geomonumento e a assumir, em nome da autarquia, o objectivo de pressionar o Governo a classificar aquele santuário da paleontologia como monumento natural. O presidente da mesma autarquia acusada por Helena Henriques de "desinteresse completo" pelas falésias, ameaçadas pela Cimpor e por duas lixeiras municipais.

Em 1996, a UNESCO declarou o Cabo Mondego como estratotipo do limiar Aaleniano-Bajociano, os dois subperíodos em que se divide o Jurássico médio, período ocorrido entre há 180 milhões e 151 milhões de anos. Isto porque nas sucessivas camadas geológicas destas falésias estão particularmente visíveis e conservados elementos fósseis, como pegadas de dinossauros, amonites (cefalópodes fósseis de concha espiralada) e vegetais. Qualquer descoberta ou metodologia de investigação só será validada após comparação com o Cabo Mondego.

Apesar deste estatuto internacional, as falésias ainda não foram classificadas como monumento natural nacional. Se dependesse das pessoas que estiveram anteontem no auditório municipal da Figueira da Foz, a coisa resolvia-se logo ali. Mas a decisão de classificar o local não depende do geólogo António Galopim de Carvalho, jubilado há uma semana, nem da Associação dos Geólogos do Sudeste de França, nem de René Mouterde e Christianne Ruget, que estudam as falésias há 50 anos, nem mesmo do presidente da Câmara da Figueira da Foz, Santana Lopes, todos participantes na sessão pública promovida pela autarquia.

A decisão está do lado do Governo. Helena Henriques afirma que o respectivo decreto foi há muito elaborado pelo Ministério do Ambiente, mas permanece no Ministério da Economia, onde foi remetido para consulta. A investigadora acredita que "há razões para ter fé". Mas também recorda que os primeiros pedidos de classificação datam dos anos 70. De nada adiantaram pareceres entretanto remetidos ao Governo, nem a projecção mediática que a Presidência Aberta de Mário Soares, em 1994, deu ao local. Para Helena Henriques, "só a falta de cultura científica da população tem permitido a inércia de quem manda". Acredita também que o protelar da classificação do Cabo Mondego se deve a "interesses económicos a que a Cimpor não é alheia". Juridicamente, o local de onde a empresa extrai cal hidráulica é um "couto mineiro". A licença de exploração está a caducar e, anteontem, Santana Lopes garantiu que a autarquia não irá prorrogá-la.

Galopim de Carvalho disse ser "um prazer ver um autarca a assumir o património local". Conhecido pela defesa da preservação dos vestígios de dinossauros em Portugal, de Carenque, no concelho de Sintra, à Pedreira do Galinha, na Serra de Aire, o professor catedrático elogiou o exemplo de municípios que têm vindo a musealizar o seu património natural, sem esperar pelas decisões do Instituto de Conservação da Natureza. "Carenque continua à espera", observou.

Durante a sessão, foi apresentado um CD-ROM sobre o Cabo Mondego, iniciativa a que se associou a Liga dos Amigos de Conímbriga. A ideia é sensibilizar cada vez mais gente para a necessidade de preservar um local cuja situação era assim apresentada, há cinco anos, por um investigador ao PÚBLICO: "É como se o metro-padrão estivesse guardado num local onde pudesse ser roído pelos ratos."


Jurássico do Cabo Mondego
Sábado, 9 de Junho de 2001

No artigo "Futuro ainda incerto para o Jurássico do cabo Mondego", publicado na secção de Ciências da vossa edição de 7 de Junho, afirma-se que acusei o actual presidente da Câmara da Figueira da Foz, dr. Pedro Santana Lopes, de "desinteresse completo pelas falésias, ameaçadas pela Cimpor e por duas lixeiras municipais". Esta afirmação reporta-se a 1994, aquando da Presidência Aberta sobre o Ambiente do Presidente da República, dr. Mário Soares, e refere-se ao presidente da autarquia de então, eng. Aguiar de Carvalho.
Maria Helena Henriques, Coimbra

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