Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 29/Julho/2000 - Secção Local Lisboa

Geóloga continua a batalhar pela classificação do Cabo Mondego
O Que É Preciso para Salvar a História
Por GRAÇA BARBOSA RIBEIRO

O facto de Mário Soares ter escalado parte da mais importante "biblioteca" do mundo sobre a época jurássica, na Figueira da Foz, poucos resultados teve para além dos mediáticos. Passados seis anos, ainda há quem batalhe pela classificação daquela zona como "património natural". Uma luta que continua a ser olhada "como se fosse um capricho", protesta a geóloga Helena Henriques.

Apesar da persistência de diversos investigadores, foi Mário Soares quem mais fez pela divulgação da riqueza geológica do Cabo Mondego, na Figueira da Foz, em cuja pedra estão inscritos milhões de anos de História. Em 1994, numa Presidência Aberta, fez uma escalada de quase 30 metros num terreno com uma inclinação superior a 45 graus e, quando atingiu o topo da pirâmide, determinou que aquela área devia ser classificada como reserva. O mediatismo da cena, contudo, poucos efeitos práticos teve. Seis anos depois, Helena Henriques, investigadora da Universidade de Coimbra, ainda batalha pela protecção daquela zona, que teme ver destruída por investimentos imobiliários.

Helena Henriques diz não entender porque é que outros não se apercebem daquilo que Mário Soares intuíu, pouco antes de admoestar os responsáveis da Cimpor - que ali têm uma zona de exploração de calcário - 'ordenando-lhes' que fizessem tudo para preservar a mais importante e completa 'biblioteca' do mundo sobre a época jurássica. Naquele local da Serra da Boa Viagem está inscrito, em cada camada de sedimentos, como folhas de um livro, o relato mais completo do mundo no período que decorreu de há 185 milhões de anos até há 140 milhões de anos. Ali está a sucessão completa, com pouquíssimos episódios em falta, da evolução geológica do globo.

Sensíveis, sim...

Os contributos para o reconhecimento da importância daquele local sucederam-se. Em 1996, a comunidade internacional reconheceu o Cabo Mondego como o estratotipo de limite do andar Bajofiano, ou seja, o intervalo de tempo geológico em torno dos 176 milhões de anos. Mas nem assim Helena Henriques (que hoje é dirigente da delegação portuguesa da Progeo, uma associação europeia que visa a preservação do património geológico) conseguiu fazer mais do que sensibilizar o Instituto da Conservação da Natureza.

Há cerca de três anos, face à proposta de classificação daquele espaço como "monumento natural", Carlos Guerra, presidente do ICN, ainda promoveu várias reuniões entre representantes da entidade proponente (o Instituto Geológico e Mineiro), da Cimpor, proprietária de terrenos naquela zona, e Helena Henriques (que fundamentou a proposta de classificação). Mas, segundo diz a investigadora, aqueles encontros foram suspensos subitamente, sem que se chegasse a qualquer conclusão.

Em declarações ao PÚBLICO, esta semana, Carlos Guerra confirmou aquele facto, mas nega que o processo esteja parado. "Nessas reuniões obtive a garantia, por parte da Cimpor, de que nada seria feito que prejudicasse a zona em causa, que pertence ao domínio público marítimo. E, nestas circunstâncias", diz, "não se justifica utilizar os meios a que apenas se recorre em casos extremos, a expropriação". Entretanto, segundo afirma, o ICN

está a fazer estudos "complementares e exaustivos do local", em termos de fauna e flora, que, na perspectiva de Carlos Guerra, "podem vir a justificar uma Reserva Natural".

...mas com "outro nível de preocupações"

"Pensamos, inclusivamente, que a existência, naquela zona de uma colónia de botos - uma espécie de golfinhos - pode implicar também uma classificação da área marinha. E isto é apenas um exemplo para que se compreenda o seguinte: sinto-me muito recompensado pela persistência da Professora Helena Henriques, que é absolutamente meritória, mas o ICN tem de ter outro nível de preocupações", sublinha o presidente daquele organismo.

Carlos Guerra, que diz reconhecer "o elevadíssimo valor geológico" da zona em causa e faz notar que "não está em causa a classificação de monumento natural", apresenta o facto de aquela zona estar incluída numa das zonas propostas para a Rede Natura 2000 como "outra prova de que não há desinteresse". "Admito que mereça uma classificação superior e é nesse sentido que estamos a trabalhar, mas em termos de eficácia foi, para já, a solução encontrada", conclui o presidente do ICN, que faz notar que qualquer empreendimento que venha a ser construído ali ou em zonas limítrofes fica dependente de um Estudo de Impacte Ambiental.

Seja como for, Helena Henriques não parou, preocupada com a possibilidade de, à extracção de calcário, se seguir a ameaça dos equipamentos imobiliários. Como tal, solicitou à Câmara Municipal da Figueira da Foz que classifique aquele património como "imóvel de interesse público". A verdade é que Miguel Almeida, vereador do Ambiente, foi tão sensível ao problema quanto Carlos Guerra. Mas, apesar de tal não ser necessário, enviou o processo para o ICN, com um pedido de parecer.

Restam as afirmações do presidente da Câmara, Santana Lopes, que garantiu que não irá autorizar que se construa qualquer equipamento que ponha em causa a preservação daquele património. Helena Henriques, contudo, fica pouco sensibilizada com este rol de intenções. "O Estado paga a investigação e o ensino e não é capaz de classificar aquela zona, que é um verdadeiro laboratório didáctico e científico. Acho incrível que as pessoas continuem a ver isto como um capricho dos geólogos!", protesta. Garante que a luta vai continuar.