Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 29/Maio/2001 - Secção Local Lisboa

Protecção das Pegadas de Dinossauros Ainda Vai Ter de Esperar na Serra de Aire

Por MANUEL FERNANDES VICENTE
Terça-feira, 29 de Maio de 2001

Chuvas danificaram monumento natural
Director do parque natural prefere aguardar por solução técnica e cientificamente garantida para avançar com medidas de fundo

Ainda não é certo que uma intervenção para a preservação dos rastos de pegadas de dinossauros da serra de Aire, entre Torres Novas e Ourém, se realize este ano. O director do Museu Nacional de História Natural, Galopim de Carvalho, já estabeleceu contactos com uma universidade espanhola para o início dos trabalhos de protecção, mas José Manuel Alho, director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), apesar de defender a urgência dos trabalhos, sustenta que eles só avançarão de "uma forma técnica e cientificamente bem estruturada".

Há um ano atrás, o estado de conservação das pegadas da serra de Aire já não era famoso - principalmente se comparado com a forma quase imaculada com que foram descobertas e anunciadas ao país em 1994. As chuvas intensas do último Inverno acentuaram o desgaste e a erosão das pegadas, já bastante maltratadas com as descargas de dinamite, a circulação de camiões e o rolar de pedras que prosseguiram até 1996. Só dois anos depois da sua descoberta por João Carvalho, de um grupo de arqueologia de Torres Novas, o Estado adquiriu a pedreira, classificando os rastos como monumento natural pouco tempo depois.

"A situação não é assim tão catastrófica como isso. Há metodologias de recuperação obsoletas e com essas nós não contamos para não suceder o mesmo que há algumas décadas na recuperação de castelos com técnicas inadequadas e que depois todos lamentaram", observa José Alho. "Há um levantamento topológico já feito e também se realizaram limpezas por grupos de escuteiros. Além disso, o monumento tem sido também acompanhado pelo professor Delgado Rodrigues, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil", adianta o director do PNSAC.

"'Grosso modo', para se fazer uma intervenção tem de se perceber como é a estrutura interna da laje [onde assentam os trilhos das pegadas]. Era importante retirar as pequenas partículas de calcário que consolidavam as fracturas nos locais das pegadas", esclarece José Alho. Porém, a "limpeza das lajes pôs mais à evidência os buracos existentes". É aqui que surgem as dificuldades. "Tapar as brechas com argamassa é contraproducente", diz o responsável do PNSAC. Mas mantendo os buracos, permite-se a infiltração da água através deles provocando um desgaste químico semelhante ao que provoca a formação de grutas, tão características na região. "Não posso garantir que uma intervenção importante seja feita ainda este ano, mas a resolução deste complexo problema é prioritária", admite José Alho.

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